Abaixo da meta: o SUS enfrenta o rastro da sabotagem contra a vacina
Mesmo com o Zé Gotinha nas ruas, o país ainda patina para bater metas básicas de imunização infantil após anos de sabotagem bolsonarista.

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Em resumo
- Dados do Ministério da Saúde mostram que 14 de 16 imunizantes para bebês de até 1 ano estão abaixo da cobertura recomendada no SUS.
- A cobertura da poliomielite atingiu 88%, distante da meta de 95% estipulada pelo Ministério da Saúde para assegurar a proteção coletiva.
- Estudo da FGV revela que o Brasil concentra 40% da desinformação antivacina veiculada na América Latina e no Caribe em grupos de mensagens.
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Tempo e progresso aproximados. Ao retomar, um trecho pode se repetir.
Quem acreditava que bastava devolver o Zé Gotinha aos braços do povo para reverter em meses um quadro crônico de hesitação tomou um choque de realidade dos números oficiais. Levantamento do Ministério da Saúde divulgado no sábado (17) aponta que 14 das 16 principais vacinas destinadas a bebês de até um ano de idade seguem abaixo da cobertura recomendada na rede pública.
O exemplo da poliomielite ilustra o tamanho do abismo: o índice alcançou 88%, quando a meta oficial fixada pelo Ministério da Saúde é de 95%. O imunizante contra a febre amarela também permanece distante do objetivo. Enquanto voluntários, profissionais de saúde e famílias conscientes compareciam a postos de Rio Branco a São Paulo para colocar cadernetas em dia, o peso do atraso ainda cobra sua fatura.
O entulho conspiratório nas redes
O cenário não decorre apenas de desatenção ou esquecimento de fim de semana. O desafio de recuperar patamares históricos de imunização coincide com a circulação em massa de mentiras que encontram terreno fértil em um país que já vinha sofrendo para bater índices de proteção.
Durante a pandemia de covid-19, sob o governo de Jair Bolsonaro — que menosprezava as orientações da comunidade científica e desencorajava explicitamente a vacinação —, as publicações contra imunizantes saltaram 680 vezes entre 2019 e 2021. Desde então, grupos digitais passaram a empilhar fraudes que associam imunizantes a câncer, mutações no DNA, autismo e morte súbita.
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Para completar o cardápio do obscurantismo, proliferaram supostos antídotos sem qualquer amparo na medicina: do consumo de alho e ivermectina ao dióxido de cloro e ao "aterramento", prática que promete repelir infecções graves simplesmente pisando descalço no chão.
A ciência contra o obscurantismo
A resistência contra vacinas tem raízes antigas, mas costuma ser desmentida pela história da saúde coletiva. Já em 1722, antes da invenção da vacina, pregadores religiosos condenavam a pioneira variolação como ato diabólico contra a providência divina. Em 1802, anos após Edward Jenner criar a primeira vacina contra a varíola, ilustrações satíricas espalhavam o boato de que pessoas imunizadas se transformariam em vacas. O saldo factual, contudo, desmoraliza o pânico: a vacinação em massa salvou cerca de 154 milhões de vidas no último meio século e erradicou a varíola do planeta em 1980.
No Brasil, o Ministério da Saúde agora intensifica as campanhas nacionais, associando a mobilização nos postos a atividades culturais e educativas para conscientizar as famílias. Reconstruir a confiança comunitária e levar a imunização a cada bairro é a tarefa central para impedir que o futuro das crianças continue ameaçado por teorias de internet.
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Fontes desta notícia
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