Eleitorado 70+ cresce, mas barreiras e abstenção desafiam urnas
Com mais de 17 milhões de aptos, voto de idosos pode definir pleitos acirrados enquanto estudos apontam entraves de mobilidade.

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Em resumo
- O eleitorado com 70 anos ou mais atingiu 17,25 milhões de pessoas aptas a votar no país, com expansão de quase 60% desde 2014.
- Embora 76% dos idosos afirmem que votariam sem obrigação, o grupo registrou 58,86% de abstenção no primeiro turno de 2022.
- Pesquisa do data8 aponta que barreiras físicas nos locais de votação, descrença e invisibilidade social afastam os idosos das urnas.
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Tempo e progresso aproximados. Ao retomar, um trecho pode se repetir.
O peso eleitoral dos brasileiros com mais de 70 anos assumiu papel central no cenário político nacional. Com voto facultativo previsto pela Constituição, esse contingente alcançou 17,25 milhões de pessoas aptas a votar em agosto, de acordo com o levantamento Retratos do Voto 70+, divulgado com base em dados da Justiça Eleitoral. O número expressa um crescimento de quase 60% desse grupo desde 2014, revelando um segmento com força suficiente para definir eleições acirradas.
A dimensão dessa presença ganha relevo histórico quando comparada ao resultado da disputa presidencial de 2022, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu Jair Bolsonaro por pouco mais de 2,1 milhões de votos no segundo turno. Naquele mesmo pleito, o índice de não comparecimento entre cidadãos com mais de 70 anos chegou a 58,86%, deixando mais de 8,7 milhões de pessoas fora das urnas na primeira rodada e registrando apenas cerca de 45% de presença no segundo turno, segundo dados do Senado Federal.
Disposição democrática contrasta com barreiras estruturais
Apesar do elevado índice de abstenção, pesquisas de opinião apontam que o interesse político do eleitorado mais velho permanece expressivo. Levantamento do Datafolha indicou que 76% dos entrevistados com mais de 70 anos afirmam que fariam questão de votar mesmo sem imposição legal. Entre pessoas com 60 anos ou mais, 61% manifestaram disposição de comparecer sem obrigatoriedade, índice superior aos 48% medidos entre jovens de 16 a 24 anos.
As razões que distanciam esses milhões de brasileiros das cabines de votação foram mapeadas pelo instituto data8. O estudo qualitativo identificou três perfis principais de afastamento:
- Baixa autoestima política: eleitores marcados pelo isolamento social, que passam a duvidar de que o próprio voto possa transformar a realidade coletiva;
- Eleitores desistidos: cidadãos desiludidos com a política institucional que encaram as candidaturas sob a falsa impressão de indiferença entre projetos;
- Barreiras físicas e mobilidade: eleitores decididos a participar, mas impedidos por dificuldades de locomoção, prédios escolares sem acessibilidade, seções distantes e filas longas.
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"Nossa análise aponta que não existe um único eleitor 70+ que se afasta das urnas. Há quem não reconheça mais o peso do próprio voto", explicou Cléa Klouri, cofundadora do data8 e coordenadora da pesquisa.
Desigualdade de gênero e defesa de direitos sociais
O mapeamento também detectou uma inversão comportamental de gênero na terceira idade. Abaixo dos 70 anos, as mulheres são maioria presente nas urnas; a partir dessa faixa, o público feminino passa a liderar as abstenções. No primeiro turno das eleições municipais anteriores, a ausência de mulheres idosas alcançou 55,4%, diante de 45,4% entre homens da mesma faixa, com pico de afastamento entre 75 e 84 anos.
Para os eleitores que mantêm a rotina de ida às urnas, a participação é vista como compromisso com o futuro e com a proteção de direitos fundamentais, como aposentadorias, fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e programas de inclusão e renda. A memória das lutas contra o autoritarismo também move eleitores como Mally Freire, de 76 anos, que faz questão de votar, e Júlio Neves, de 71 anos, que vota com entusiasmo e incentiva conhecidos da mesma idade a comparecer.
Com a maior parte dessa população concentrada no Sudeste, a adaptação estrutural dos locais de votação e o apoio ao deslocamento impõem-se como exigências democráticas para que a cidadania da terceira idade continue participando ativamente dos destinos do país.
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