Itamaraty empossa primeiros diplomatas indígenas e quilombola
Com reserva de vagas e apoio público, turma de 2026 do Instituto Rio Branco forma a composição mais diversa da história da diplomacia brasileira.

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Em resumo
- Pela primeira vez na história, dois indígenas e uma mulher quilombola ingressam na carreira diplomática pelo Instituto Rio Branco.
- Quase metade dos 60 aprovados integra grupos historicamente sub-representados, com 17 pessoas negras e sete com deficiência.
- A nova turma registra o recorde de 45% de presença feminina, impulsionada pelo fortalecimento das ações afirmativas.
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Tempo e progresso aproximados. Ao retomar, um trecho pode se repetir.
Pela primeira vez na história, o Palácio Itamaraty empossou diplomatas indígenas e uma mulher quilombola aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). A cerimônia em Brasília marcou a entrada de Marcelo Kariri Meneses, do povo Kariri, Idjahure Achkar Terena, do povo Terena, e Helen Jaine Gomes Borgens, integrante do território do Retiro (GO), no curso de formação do Instituto Rio Branco.
A turma que inicia a formação rumo a 2028 é a mais diversa já registrada pela diplomacia do país. Entre os 60 aprovados, quase metade — 27 vagas — foi preenchida por grupos historicamente sub-representados: são 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, os dois representantes de povos originários e uma mulher quilombola. O grupo também estabelece um marco ao atingir 45% de presença feminina, a maior proporção da história da instituição bicentenária.
Aldeamento do Estado e soberania popular
A mudança na composição da carreira diplomática resulta do fortalecimento deliberado de políticas públicas e ações afirmativas que buscam quebrar séculos de isolamento elitista nas esferas de representação internacional do país.
Durante o evento de posse, a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, ressaltou a importância dessa virada institucional para a defesa dos direitos sociais previstos na Constituição de 1988:
“Celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas brasileiros nessa instituição bicentenária é um ato de resistência. Ao fazer isso, o Itamaraty reafirma com convicção o papel que esses grupos sociais têm e devem ter na definição da posição do Brasil no mundo.”
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, apontou que a conquista simboliza a materialização da diretriz de "aldear o Estado", alçando lideranças comunitárias a postos técnicos estratégicos de formulação política. Terena frisou que se trata de uma reparação estrutural para povos que no passado não tinham sequer sua humanidade reconhecida pelo poder colonial.
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Presente como orador de honra com a farda da Academia Brasileira de Letras (ABL), o escritor indígena Ailton Krenak destacou a quebra da frieza dos salões tradicionais com a presença das famílias e defendeu a capacidade coletiva de "exercitar o verbo esperançar e produzir mundos ricos de sentido".
Trajetórias de superação contra a exclusão histórica
Os novos diplomatas chegam à carreira pública com sólidas trajetórias acadêmicas e comunitárias. Marcelo Kariri Meneses, natural de Campina Grande (PB), é graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e autor de livro infanto-juvenil. Marcelo relatou o peso do preconceito histórico que tentava limitar os seus ao trabalho braçal e a centralidade da educação para romper essas barreiras.
Já Idjahure Achkar Terena, mestre pelo Museu Nacional/UFRJ e doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), sublinhou que a ocupação do Itamaraty significa combater a tutela secular do Estado para erguer um futuro no qual a pluralidade originária atue diretamente nas decisões internacionais do país. Ele é filho de Macsuara Kadiwéu, primeiro ator indígena do cinema nacional.
A representação quilombola é inaugurada por Helen Jaine Gomes Borgens, jovem de 25 anos da comunidade do Retiro, em Simolândia (GO), formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
Com salários iniciais de R$ 22.558 e início de atividades no Instituto Rio Branco, a posse consolida um compromisso central do governo federal: colocar o povo brasileiro, suas raízes e suas lutas originárias como protagonistas da presença soberana do Brasil no cenário global.
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