Israel vota sob domínio da direita e sem saída para a Palestina
Cerca de 7 milhões de israelenses vão às urnas em pleito que pode tirar Netanyahu do poder, mas mantém a recusa histórica à soberania palestina.

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Em resumo
- Cerca de 7 milhões de israelenses votam nesta terça-feira (27) na primeira eleição geral do país desde outubro de 2023.
- Os três principais favoritos — Netanyahu, Eisenkot e Bennett — rejeitam a criação de um Estado palestino e mantêm perfil militarista.
- A contagem em cédulas de papel deve ser concluída na quarta-feira (28), iniciando a disputa por maioria no Parlamento de 120 cadeiras.
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Cerca de 7 milhões de israelenses vão às urnas nesta terça-feira (27 de outubro de 2026), na primeira eleição realizada no país desde as ações de 7 de outubro de 2023. A votação, feita em cédulas de papel, tem resultado previsto para o fim desta quarta-feira (28) e pode determinar o fim da permanência do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que soma 19 anos no poder à frente do Likud. O cenário político que emerge das urnas, contudo, não aponta para uma inflexão pacífica: todos os três blocos favoritos ao governo são liderados por nomes da direita e do setor de segurança, unificados na recusa a reconhecer o Estado palestino e na defesa do desarmamento do Hamas.
Além de Netanyahu, disputam o comando do Executivo o ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, o ex-general Gadi Eisenkot — líder do partido Yashar (Íntegro), criado em 2025 —, e uma aliança chefiada pelo ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, do partido Juntos (Beyahad), que governou entre 2021 e 2022. Embora Eisenkot tenha rompido com o gabinete de guerra acusando Netanyahu de negligenciar o resgate de reféns e de ignorar alertas anteriores aos ataques de 2023, sua plataforma mantém o alinhamento com a força militar.
Disputa restrita entre falcões da segurança
A professora de relações internacionais do Ibmec de São Paulo Karina Stange Calandrin explicou à Agência Brasil que a oposição competitiva não oferece ruptura no plano das ações armadas, classificando os concorrentes como integrantes da ala dura do establishment.
“Os três são de direita. Em termos de segurança, eles são bem parecidos. São partidos que a gente chama de falcões. Em Israel, os partidos são divididos entre falcões e pombas. Os falcões acreditam que se deve lidar com os inimigos de uma forma dura, que negociações e diplomacia não são o caminho para resolver os dilemas de Israel”, explicou Karina Calandrin.
A distinção central apontada por analistas está no modelo de poder interno. Segundo Michel Gherman, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Netanyahu personifica uma extrema-direita voltada à desfiguração do regime representativo por meio de reformas para neutralizar o Judiciário e concentrar prerrogativas no Executivo. No plano internacional, enquanto Netanyahu aposta no confronto irrestrito, Eisenkot sinaliza buscar entendimentos com governos árabes vizinhos, sem incluir os palestinos nas tratativas imediatas.
Ocupação ilegal e violência na Cisjordânia
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Nos territórios ocupados da Cisjordânia, a repressão e os ataques de colonos extremistas continuaram a ser registrados pela agência de notícias palestina Wafa durante a jornada eleitoral. A gestão Netanyahu aprofundou a colonização ilegal, sustentada por ministros como Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, que incentivam invasões de terras na Área B — ato vedado até mesmo pelos parâmetros internos israelenses.
A avaliação de Calandrin é de que a vitória de Bennett ou Eisenkot poderia frear o avanço dos assentamentos na Área B e abrir espaço para a intermediação de atores regionais como Egito e Catar, canais travados pelo atual premiê. No entanto, a negativa em admitir a autodeterminação palestina permanece consensual entre as lideranças com chances de vitória.
Desafio de formar maioria no parlamento
No sistema parlamentarista israelense, a formação de gabinete requer a composição de ao menos 61 dos 120 assentos do Knesset. A construção dessa aliança expõe o isolamento das forças progressistas e da minoria árabe.
Tanto Bennett quanto Eisenkot declararam publicamente rejeitar coalizões formais com legendas árabes israelenses. Conforme pontuou Karina Calandrin, essa barreira prévia dificulta a estabilização de uma maioria sem concessões de última hora. Para Michel Gherman, um arranjo possível envolveria os parlamentares árabes votando taticamente para derrubar Netanyahu, permitindo a viabilização de um gabinete minoritário da oposição.
A troca de comando em Tel Aviv pode afastar os arroubos autoritários da coalizão de Netanyahu contra o próprio Judiciário, mas deixa intocada a engrenagem colonial que nega direitos humanos e soberania ao povo palestino.
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